O ódio como meio de sobrevivência em O apocalipse dos trabalhadores, de Valter Hugo Mãe

Autores

DOI:

https://doi.org/10.37508/rcl.2026.n56a1431

Palavras-chave:

imigração, Sobrevivência, ódio, Subjetividade, afeto

Resumo

Em O apocalipse dos trabalhadores, obra de Valter Hugo Mãe, publicada em 2008, apesar de as mulheres-a-dias Maria da Graça e Quitéria serem as protagonistas, o comportamento do imigrante ucraniano Andriy provoca, desde o início, grande impacto no leitor. Deslocado de sua terra natal, em razão da pobreza imposta pelos conflitos políticos e pela crise humanitária deles decorrente, Andriy migra para Portugal, mais espe-cificamente para Bragança, que é uma cidade de fronteira pertencente à antiga província Trás-os-Montes e Alto Douro. Esse fluxo migratório de eslavos (ucranianos, russos e búlgaros), intensificado a partir do ano 2000, tem, como objetivo principal, a sobrevivência, que se dá, sofrivelmente, por intermédio do trabalho na construção civil e na agricultura, setores que assimilam essa mão de obra barata. Andriy, um jovem de apenas 23 anos, precisa sobreviver sozinho, longe de sua família, para a qual ainda tem de enviar dinheiro, em um país estrangeiro, com uma língua que desconhece completamente. Para enfrentar esses desafios, impõe-se as maiores privações, despersonaliza-se, torna-se um sujeito maquínico (conforme teorização de Bachelard) ou uma espécie de dispositivo (como se aprende com Foucault e com Agamben) sem sentimentos. Andriy responde às humilhações, a princípio, com o ódio (o que, segundo Freud e Kristeva, é muito comum), como forma de repúdio àquela sociedade que o subjuga de todas as maneiras, mas, ao final, prevalece o humano, e, pela intervenção do amor de Quitéria, Andriy reencontra-se com sua subjetividade e com o que nela comparece como afeto.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Adriana Girão Campiti Braga, Universidade Federal Fluminense (UFF)

Possui Graduação em Português e Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com Especialização em Literatura Portuguesa pela mesma instituição. Mestra em Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Federal Fluminense (UFF), instituição na qual, atualmente, é doutoranda em Literatura Comparada. Prepara para a Carreira Diplomática há cerca de 25 anos, no Curso Campiti Braga Educação e Mídia Ltda.

Referências

AGAMBEN, Giorgio. O que é o dispositivo? In: AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Tradução de Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009. p. 25-51.

ALMEIDA, Daniella. Saiba como nova lei dos estrangeiros afeta brasileiros em Portugal. Agência Brasil, Brasília (DF), 23 out. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2025-10/saiba-como-nova-lei-dos-estrangeiros-afeta-brasileiros-em-portugal. Acesso em: 20 jan. 2026.

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. 2. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013a.

BACHELARD, Gaston. A terra e os devaneios da vontade: ensaio sobre a imaginação das forças. 4. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013b.

BACHELARD, Gaston. A terra e os devaneios do repouso: ensaio sobre as imagens da intimidade. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

EMBAIXADA DA UCRÂNIA NA REPÚBLICA PORTUGUESA. Informação sobre a comunidade ucraniana em Portugal. Embaixada da Ucrânia na República Portuguesa, Portugal, 01 jan. 2026. Disponível em: https://portugal.mfa.gov.ua/pt/partnership/240-ukrajinci-u-portugaliji/informaciya-pro-ukrayinsku-gromadu-v-portugaliyi Acesso em: 20 jan. 2026.

FIDALGO, Helena. “Mães de Bragança” acusam brasileiras de provocar “onda de loucura” na cidade. Público, Portugal, 01 maio 2003. Disponível em: https://www.publico.pt/2003/05/01/jornal/maes-de-braganca-acusam-brasileiras-de-provocar-onda-de-loucura-na-cidade-200790. Acesso em: 12 abr. 2025.

FOUCAULT, Michel. Sobre a História da sexualidade. In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 2000. p. 243-257.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: FREUD, Sigmund. Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996 [1930]. v. XXI, p. 66-148.

FREUD, Sigmund. Os instintos e suas vicissitudes. In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996 [1915]. v. XIV, p. 137-162.

KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos. Tradução de Maria Carlota Carvalho Gomes. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

MÃE, Valter Hugo. O apocalipse dos trabalhadores. 2. ed. São Paulo: Biblioteca Azul, 2017.

MÃE, Valter Hugo. Entrevista à RTP arquivos, no programa A força das coisas. RTP Arquivos, Portugal, 11 jul. 2008. Disponível em: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/entrevista-a-valter-hugo-mae/. Acesso em: 10 jan. 2025.

MÃE, Valter Hugo. Prostituição brasileira em Bragança faz capa da “Time”. Público, Portugal, 14 out. 2003. Disponível em: https://www.publico.pt/2003/10/14/sociedade/noticia/prostituicao-brasileira-em-braganca-faz-capa-da-time-1170625. Acesso em: 05 jan. 2025.

VALTER Hugo Mãe – 06/01/2014. [S. l.: s. n.]. 2015. 1 vídeo (1 h 23 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6i67t4CZRew. Acesso em: 30 mar. 2025.

VALTER Hugo Mãe: a pureza não é tão interessante assim. [S. l.: s. n.], 13 out. 2016a. 1 vídeo (8 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IXSpuubI_VE. Acesso em: 23 mar. 2025.

VALTER Hugo Mãe no programa do Jô. [S. l.: s. n.], 16 nov. 2016b. 1 vídeo (20 min). Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QVlt8cmK9R8. Acesso em: 23 mar. 2025.

Downloads

Publicado

2026-07-05

Como Citar

Girão Campiti Braga, A. (2026). O ódio como meio de sobrevivência em O apocalipse dos trabalhadores, de Valter Hugo Mãe. Convergência Lusíada, 37(56), 129–148. https://doi.org/10.37508/rcl.2026.n56a1431