O espaço como destino em A origem dos dias, de Miguel D’Alte

Autores

DOI:

https://doi.org/10.37508/rcl.2026.n56a1441

Palavras-chave:

Miguel D'alte, A origem dos dias, Paisagem, Metaficção, Narrador

Resumo

Este artigo parte da leitura do romance A origem dos dias (2024), de Miguel D’Alte, a partir da articulação entre espaço, paisagem e metaficção. À luz da tensão entre criação literária e realidade, a leitura do romance evidencia os modos pelos quais a narrativa constrói uma geografia existencial marcada pelo deslocamento contínuo do protagonista, Tomás Franco, entre espaços rurais e urbanos para além das fronteiras de Portugal. Esses lugares funcionam como instâncias de sentido que moldam estados de consciência, afetos e modos de estar e perceber o mundo. A paisagem é compreendida na condição de categoria substancial a partir de Michel Collot (2013), enquanto resultado do encontro entre o mundo e um ponto de vista, revelando o processo de “espaçamento do sujeito”. A trajetória de Tomás é lida à luz do “herói problemático”, de Lukács (2009), cuja peregrinação interior se dá pela busca de origem, autoconhecimento e sentido. Além disso, o presente estudo destaca o caráter metaficcional do romance, mobilizando autores como Patricia Waugh (1984), Hutcheon (1984) e Dällenbach (1979), para mostrar de que maneira a narrativa reflete sobre o próprio processo de escrita e problematiza os limites entre ficção e realidade. Ao final, o retorno à paisagem de origem sugere a literatura enquanto espaço possível de pertencimento. Assim, A origem dos dias configura-se numa narrativa em que espaço, memória e escrita se entrelaçam na construção da subjetividade contemporânea. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES).

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Milena Maia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)

Doutoranda e Mestra em Literatura e Crítica Literária na PUC-SP, sob orientação da Professora Doutora Diana Navas. Bolsista PDSE/CAPES (06/2024), com realização de Doutorado Sanduíche na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas, com co-orientação da Professora Doutora Ana Paula Arnaut, em 2024. Possui Especialização Lato Sensu em Literatura pela PUC-SP (COGEAE). Possui graduação em Português/Literaturas pela UFRJ (2006). É membro do Grupo de Pesquisas Dinâmicas do Hipercontemporâneo, vinculado ao Centro de Literatura Portuguesa, da Universidade de Coimbra, coordenado pela Pro. Dra. Ana Paula Arnaut. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literaturas Portuguesas, e pesquisa, principalmente, os seguintes autores e temas: Literatura Portuguesa Hipercontemporânea, manifestações da violência na literatura, pós-memória, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz, Joana Bértholo, entre outros.

Renan Henrique Messias de Paulo, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

Doutorando em Estudos de Literatura (PPGLit - UFSCar) com período sanduíche na Universidade Católica Portuguesa (UCP), campus Braga. É mestre em Estudos de Literatura (UFSCar), bacharel e licenciado em geografia pela Universidade de São Paulo (USP), licenciado em História (Claretiano), licenciado em Letras-Português (Claretiano). É membro do GELPA - Grupo de Estudos Literários Portugueses e Africanos (UFSCar), também do Grupo de Pesquisa "CEILI - figurações estéticas do contingente, do excêntrico e do indizível na literatura" (UFSCar) e do GENFIP - Grupo de Estudos Sobre a Novíssima Ficção Portuguesa (UFSCar). Autor dos livros "Ervas daninhas" (Patuá, 2024) e "Comida para porcos" (Patuá, 2025).É bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, CAPES.

Referências

ALVES, Glória da Anunciação. A produção do espaço a partir da tríade lefebvriana concebido/percebido/vivido. GEOUSP Espaço e Tempo, São Paulo, Brasil, v. 23, n. 3, p. 551-563, dez. 2019. DOI: 10.11606/issn.2179-0892.geousp.2019.163307. Disponível em: https://revistas.usp.br/geousp/article/view/163307. Acesso em: 18 jan. 2026.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura, história e cultura. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

BERNARDO, Gustavo. O livro da metaficção. São Paulo: Tinta Negra, 2010.

COLLOT, Michel. Poética e filosofia da paisagem. Tradução de Ida Alves (org). Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2013.

DÄLLENBACH, Lucien. Intertexto e autotexto. Poétique - revista de teoria e análise literária, Coimbra, n. 27, p. 51-76, 1979.

D’ALTE, Miguel. A origem dos dias. Lisboa: Suma de Letras, 2024.

HELDER, Herberto. Vida e obra de um poeta. In: HELDER, Herberto. Os passos em volta. Rio de Janeiro: Azougue editorial, 2005. p. 115-120.

HUTCHEON, Linda. Narcissistic narrative: the metafictional paradox. New York: Methuen, 1984.

JOUVE, Vincent. Por que estudar literatura? Tradução Marcos Bagno e Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola, 2012.

LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2009.

LOURENÇO, Eduardo. Obras Completas de Eduardo Lourenço IX – Pessoa Revisitado, Crítica Pessoana I (1949-1982). Coordenação, introdução e notas de Pedro Sepúlveda. Fundação Calouste Gulbenkian: Lisboa, 2020.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Tradução de Mônica Costa Neto. São Paulo: Ed. 34, 2005.

SANTOS, Henrique Pereira dos. Do tempo e da paisagem: manual para leitura de paisagens. Cascais: Princípia, 2010.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2006.

SILVA, Gabriela. A novíssima literatura portuguesa: novas identidades de escrita. Revista Desassossego, [S. l.], v. 8, n. 16, p. 6-21, dez. 2016. DOI: 10.11606/issn.2175-3180.v8i16p6-21. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/desassossego/article/view/122430. Acesso em: 22 dez. 2025.

WAUGH, Patricia. Metafiction: the theory and practice of selfconscious fiction. Londres: Routledge, 2003.

Downloads

Publicado

2026-07-05

Como Citar

Maia, M., & Messias de Paulo, R. H. (2026). O espaço como destino em A origem dos dias, de Miguel D’Alte. Convergência Lusíada, 37(56), 170–193. https://doi.org/10.37508/rcl.2026.n56a1441